Texto Núcia Ferreira | | Fotos: Globo / Divulgação | Adaptação Web Evelyn Cristine

Marjorie Estiano fala sobre seu novo e tenso trabalho em Justiça

Como foi compor essa personagem que desejou morrer? O que você pensa a respeito?
MARJORIE ESTIANO: Não é a primeira vez que eu penso nisso, sabe? Essa questão de vida e morte sempre me ocorreu, o interesse de saber que cada um tem o direito sobre a sua própria vida, que sobreviver pode não ser uma obrigação. A Beatriz me encontrou em um momento que eu me questiono mais em relação a isso, ou seja, o direito de querer morrer, se fosse insuportável para você.

Mas não acha que sempre existe esperança, pois a medicina está avançada e vários tetraplégicos se superam?
ME: No caso dela, especificamente, acho que foi muito cedo, claro! Ela e o Mauricio (Cauã Reymond) se precipitaram. Foi menos de 48hs depois do acidente e não foi nada elaborado. Ela poderia, sim, descobrir novos caminhos nessa nova condição, como poderia, também, não descobrir. A Beatriz poderia ‘se oferecer’ essa oportunidade. Então, acho que nesse caso foi um erro.

Em 'Ligações Perigosas', sua personagem também quis morrer, mas por amor. Consegue encontrar relação com o papel de agora com o anterior?
ME: A Mariana, da minissérie, foi um suicídio e nas duas existiu esse elemento que atravessou a vida de ambas. Em Ligações foi a separação do Augusto (Selton Mello) e agora, com a Beatriz, a separação dela com o seu próprio corpo, do controle de se movimentar e tal. Como bailarina, o corpo era a maneira que ela escolheu para viver, né? Tanto a Mariana como a Beatriz se viram sem saída e não se deram nenhuma alternativa diferente para elaborar melhor essas situações.

Você tem uma opinião pessoal sobre a eutanásia?
ME: Não tenho uma opinião formada, mas acho que sim, a pessoa tem o direito sobre a sua vida. O contexto, porém, faz toda a diferença, né? Se você se encontrar em um período deprimido... Quem nunca teve o desejo de morrer? Todo mundo! Eu já tive desejo de morrer e você também teve. Não mente para mim (risos). Mas daí a fazer isso é diferente!

Marjorie Estiano fala sobre seu novo e tenso trabalho em Justiça

Você gosta de interpretar personagens sofridos?
ME: Não gosto dessa palavra ‘sofrido’. Eu gosto é de conflitos, aquilo que promova uma construção, uma elaboração, a trajetória de uma personagem.

Justiça também fala sobre vingança. O que pensa sobre esse tema igualmente forte?
ME: É muito relativo isso, uma pergunta muito ampla! Já tive muitos impulsos vingativos e, graças a Deus, não cedi a nenhum deles ou não tive oportunidade de ceder. Racionalmente, o caminho da vingança é o lugar que mais lhe faz mal, mais do que qualquer outro tipo de satisfação.

E como foram as gravações com o Cauã Reymond? Vocês já tinham trabalhado juntos em outra oportunidade?
ME: Aproveitamos todos os momentos juntos para explorar possibilidades e foi tão bom, apesar do pouco tempo, já que a Beatriz morre logo no início. É normal que duas pessoas que não se conhecem encontrem uma quina ou outra, faz parte do processo de conhecimento, mas o fluxo foi tão contínuo, fluido e leve. Cauã é bastante disponível e presente.

Depois de 'Império' você vem fazendo produções menores. É uma opção sua?
ME: Eu não sei lhe responder isso, não, mas confesso que gosto de produtos menores. De série e cinema, por serem histórias fechadas. Tem começo, meio e fim e acho que essas obras podem ser mais elaboradas. Novela traz outras coisas e um frescor da mudança, por causa do público, e isso também é bem interessante. Por enquanto estou por aí e não sei se vou fazer outra novela em breve.

Continua conciliando a carreira de atriz com a música?
ME: Continuo compondo para meu novo disco de inéditas. A música e a atuação, para mim, fazem parte do mesmo artista. É uma questão de brecha ou maturação. Quando o disco estiver pronto, vou lançá-lo.

Revista TV Brasil - Ed. 857